domingo, 6 de junho de 2010

Pés cansados...

Era descoberta. Hoje é deixado. Mistério doloroso.
Um pé de carambola, um de manga e outro de romã. Todos palcos diferentes de uma mesma dor. Lembro de quando criança brincar no pé de carambola. Espírito de Cousteau, com coragem de sobra. Como um cavaleiro destemido enfrentando qualquer medo, me juntando, me tornando uma só, com o pé. Se tornando assim um de meus pés. O pé de Romã era uma casa. Segunda casa. Lugar exclusivo. Especial. De visita rotineira. De aconchego e sossego. Diferente do de carambola que era visto de vez em quando. Também se tornou um de meus pés. O de manga era o menos visto. O menos conhecido. Nem ao menos teve empatia. Apenas existia sem partilha de algum momento. Mas também se tornou um de meus pés.
O de manga foi palco. Um triste acontecimento. Que levou uma parte de mim. Fazer o que? Cada pé leva a um caminho. O desse foi trágico. Dolorido. Misterioso. Morte sem motivo. Que ficou apenas assim: Morte. Nada mais.
O de carambola é apenas adorno. Um simples adereço do palco em um ato de uma peça sem precedentes. Apenas um enredo com um fim mal escrito e mal assinado. Morte também. E como o de manga foi morte decidida, egoísta, que não podia ser prevista nem evitada. Mortes na calada do mundo. No submundo da vontade própria.
O de romã é pura lembrança. Não foi parte nem espectador do ato da peça, mas faz parte da convivência. De memórias do fundo do coração. Dos momentos de família, com aquela sem a qual, a família não existiria.
Três mortes escritas e dirigidas pela vida.
Reclamar de que? A vida é assim. Peça longa pra alguns e curta para outros.
Cada um escreve o roteiro de sua vida. E ela vai deixando até ver que precisa colocar um ponto final. Infelizmente esse ponto final é sempre a morte. Talvez seja esse o caminho a se pensar: É a vida que se sobressai sobre a morte. Tanto que a domina e só nos lança a ela quando quer.
Só que a vida já lançou três partes de mim à morte. Ao arrancar de mim meus três pés.
Eu pensava que ao me tornar parte desses três pés iria sempre me reencontrar neles, mas não. A lembrança dolorosa de morte que cada um me traz, mostra que o que havia de mim neles, não mais há. Foi embora com cada morte. E que eu preciso esquecer. Aprender a deixar certas coisas para trás. Porque apesar de três vidas importantes para mim, terem acabado, a minha continua e eu preciso continuar escrevendo.
Um dia quem sabe, eu continue. Por enquanto quero chorar a perda de meus pés. Eu preciso chorar.
E os meus próprios pés que sempre me levam a algum caminho precisam descansar. Porque no momento são apenas isso. Pés cansados.

[Il mio cuore è con voi]