Era uma intensidade compartilhada. Um sentimento que ardia em ambos os corpos e que os chamava para convergirem em um ponto comum. À primeira vista não tinham endereço, não tinham um norte, mas aquele desejo de ambivalência era tão autônomo e independente de seus quereres que se guiava sem mapas, sem bússulas, sem rumo e se deparavam, o de um com o do outro, em um abismo cheio de medos mas que fazia pulsar uma adrenalina tão perigosa que beirava a insanidade. Latejavam em sintonia, em meio a personagens coadjuvantes de suas rotinas, tão insosos quanto podiam, tão desimportantes e menos intérpretes que os dois em foco. O sentimento nasceu imenso, já tinha destino, já se possuíam, mesmo na possibilidade remota que visitou a imaginação de ambos, mesmo nessa prematura sorte, já se possuíam. Deixaram-se guiar apenas pelo instinto. Bastaram alguns olhares, convites de intimidade, joguetes de intuição, para que o platonismo caisse por terra e para que o tato e o físico fossem feitos um para o outro. Disseram antes de tudo muitas palavras, muita cautela. Discutiram não ainda o futuro, mas o presente com reflexos em seus passados. Ele temia o percurso do futuro, ela instigava o futuro no presente e lhe cabia ser a faísca que lhes faltava, o impulso para aquele abismo que dissemos.
Entre os dois havia um muro. Um muro tão denso e tão transponível que formava o paradoxo da história. Envolvia pra ele preceitos morais, medo do desconhecido e uma fidelidade primeira que foi entregue a um outro alguém. Para ela envolvia muito, mas não é necessário dizer, abriu mão de tudo. Entre intensões e atitudes, faz-se um juízo de valor que cabe à essa altura: ele sabia ser ator mas era amador demais pro papel principal. Ela, era brasa, era a personificação do carpe diem, papel principal era pouco pra quem quer viver cada detalhe da vida, podia ser vilã, podia ser inocentemente mocinha. Era multifacetada porque se entregava ao trabalho de ser única. Esse contratempo fez com que entre idas e vindas crescesse um tal muro. Tão denso, tão transponível. Falar das condições racionais faz até com que esqueçamos daquele desejo de contato que nasceu no começo. Mas este era vivo e queimava. Faltava um corredor no escuro, pra que essa chama brilhasse e iluminasse o sentimento puro e simples não só de atração física mas de um carinho inocente, de uma admiração gratuita, de um querer tão bem querer, de todas as músicas que ouviam quando à sós e que os transportavam um pro outro em saudade, em lembrança. Faltava coragem - de uma das partes que fique claro. Abriu-se a brecha. Os pés estavam tão na beira, metade firme em terra, metade suspensa no ar soberano que soprava o vale desconhecido abaixo deles. Uma vontade louca de pular de onde se está, de sentir um suspiro na alma, um prazer, um temor, um mixto, um sabor que só se tem duas vezes na vida. Uma quando se arrisca tudo, quando se é inconsequente. Outra quando se ama de um jeito tal que se sente completo, sem dó que o mundo acabe no agora, em um ato egoísta supremo. Era se jogar, era dar um passo pra trás. Não era a pior decisão de todas, mas foi a decisiva. Era sabido que iriam se jogar. Namoravam-se em ato não em título. Experimentavam-se. Ele sentia a maciez da pele dela, a silhueta sensualmente contorcida, tào desejável como mulher, tão intocável como pessoa. Ela sentia a rigidez de sua masculinidade vigente, secreta, discreta agridoce. Tocavam-se com uma firmeza delicada, com uma sede exótica, erótica. Era uma questão de pele, de pêlos, de sensibilidade exalada. Suas bocas arfavam uma respiração profunda, pausada, pensada. Suas línguas passeavam pelos contornos da orelha, do pescoço, selavam beijos nos olhos, nas proximidades da têmpora. O sentimento de posse era tamanho que conectava suas almas. O arrepio excitante que cruzava a disformidade do corpo dela, subiu de assalto, percorreu a espinha, chegou ao cérebro. Pausa.
Retomaram a consciência. Envergonharam-se mas não reprimiram-se. Cortejavam-se docemente, como que dissociando os resquícios do prazer de outrora. O cheiro um do outro, o gosto um do outro. Foi bastante intenso pra ser ignorado. O silêncio dos dias que seguiram não foram de desprezo, foram de gigantismo, por não conseguirem contêr tamanha emoção, mistura de prazeres e dores, de dissabores, de auto-piedade. Mas jamais de desdita, de negação. Guarda-se essa paixão num lugar amplo chamado memória. Num lugar insólito chamado saudade. Ele acordou de um susto, entrelaçado, pernas com pernas. Pernas sem cheiro, cabelos negros, toque sem o calor da personalidade dela. Chamou seu nome. Ele ecoou no vazio de sua dúvida, de sua perda.