quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Peça

A incontinência do pensamento nem sempre é ruim. Nem sempre, mas na maioria do tempo é e o problema é esse. Pior que não poder conter o fluxo de informações, é saber que grande parte das pessoas não compreendem ou não querem compreender o que você pensa. O que é normal, não pretendo apocaliptizar esse fato, apenas expor uma reflexão. Meu ponto de vista sobre determinados assuntos é uma peça, porém essa peça não encaixa em lugar algum a não ser dentro de mim mesma. Se trata mais do modo como a opinião soa, da forma como as pessoas vão entendê-la do que a opinião em si. É como contar a alguém um sonho tido durante a noite: o mais próximo que você consegue chegar da reprodução fiel do sonho é a forma como ele vai ser imaginado na mente de quem o ouve. Explicando a grosso modo, você simplesmente não consegue mostrá-lo, apenas reproduzi-lo em palavras e o modo como ele será elaborado na cabeça de outra pessoa não é, nem de longe, semelhante ao modo como ele está na sua memória. O mesmo acontece com algumas das minhas reflexões. As pessoas ouvem e deturpam, absorvem minhas palavras e as reproduzem da maneira como as convém. Complicado, porque é interessante estabelecer uma conversa em que ambos são devidamente compreendidos. Não falo de compreensão de sentimentos, de diálogo na relação afetiva, nada disso. Falo sobre diálogos triviais com qualquer pessoa. Na maioria das vezes eu guardo essas opiniões ‘sem encaixe’. É mais fácil não expor do que tentar e parecer idiota. Ou ainda arquitetar palavras para tornar o pensamento mais compreensível a outras pessoas e não obter êxito. Como agora.